
Em agosto de 2026, a equipe da Ybyara Arqueologia, em parceria com a CMVG Pesquisas Arqueológicas, esteve em Costa Marques, Rondônia, para realizar a pesquisa arqueológica vinculada ao licenciamento ambiental de um empreendimento de extração de areia no rio Guaporé. O trabalho reuniu duas frentes que raramente aparecem juntas: a investigação do fundo do rio com sonar e o registro da memória das pessoas que vivem às suas margens.
Arqueologia debaixo d’água
Quando a área a ser estudada fica no leito de um rio, não é possível simplesmente abrir sondagens no chão. Por isso, a pesquisa adotou a prospecção subaquática indireta, feita com sonar de varredura lateral. O equipamento, instalado em uma embarcação, emite pulsos sonoros que “desenham” o fundo do rio em imagens detalhadas, sem tocar no leito nem remover sedimento.
Leitura das imagens do sonar em tempo real, a bordo da embarcação.
A equipe percorreu o trecho estudado em linhas paralelas ao canal, seguindo uma malha planejada e aprovada previamente pelo IPHAN. As imagens revelaram um leito arenoso e dinâmico, com marcas onduladas e dunas submersas moldadas pela correnteza. Em cada imagem, a equipe procurou sinais típicos de ocupação humana, como formas geométricas regulares, contornos de embarcações ou concentrações de objetos.
Quando o rio seca
A campanha aconteceu no auge da estiagem amazônica, quando o Guaporé atinge seus níveis mais baixos. Parte da área estava literalmente seca, transformada em extensos bancos de areia. Onde o barco não conseguia passar, a equipe seguiu a pé, caminhando sobre as praias e atravessando as águas rasas para observar diretamente o sedimento exposto.

Caminhamento sobre os bancos de areia e inspeção a vau nas águas rasas do Guaporé.
Essa adaptação mostra algo importante sobre a arqueologia em ambientes fluviais: o rio muda ao longo do ano, e a pesquisa precisa acompanhar esse ritmo. A escolha de uma embarcação pequena e de baixo calado, mais adequada à seca, permitiu chegar perto dos bancos e ampliar a área investigada.
Conversando com quem conhece o território
A arqueologia não se faz apenas com equipamentos. Uma parte essencial do trabalho é ouvir as pessoas que vivem na região, compartilhar com elas o que é o patrimônio arqueológico e aprender com o que elas sabem.
As ações de educação patrimonial foram realizadas com moradores e trabalhadores da área do empreendimento e com a Comunidade Quilombola de Santo Antônio do Guaporé, em São Francisco do Guaporé. Durante as conversas, a equipe apresentou um folder explicativo e uma prancha com imagens de cerâmicas e ferramentas de pedra. A prancha ajuda a reconhecer objetos que muitas vezes são conhecidos no dia a dia, mas não pelo nome técnico.

Chegada à Comunidade Quilombola de Santo Antônio do Guaporé pelo rio.
Os resultados foram reveladores. Para parte dos participantes, foi o primeiro contato com o tema e com o papel do IPHAN na proteção do patrimônio. Em Santo Antônio, ao contrário, os moradores mais antigos reconheceram de imediato os materiais apresentados e contaram que costumam deixar os objetos encontrados no próprio local, por entenderem que eles fazem parte da história da comunidade.
Memórias que atravessam gerações
Santo Antônio do Guaporé guarda uma história profundamente ligada ao rio. Os relatos dos moradores falam de antepassados vindos de Vila Bela da Santíssima Trindade, das antigas embarcações que levavam semanas para percorrer o Guaporé e do tempo em que a comunidade era conhecida como “Baía do Boi”.

A casa de farinha, principal atividade econômica da comunidade.
A casa de farinha, a Igreja de Santo Antônio e o sino datado de 1952 são algumas das referências que os moradores fazem questão de mostrar a quem chega.

O sino de 1952, com a inscrição do santo em relevo.
A pesquisa incluiu também uma entrevista de história oral com um morador ligado à comunidade e fundador de uma associação dedicada à proteção das tartarugas e tracajás do Guaporé. Seu depoimento mostra como memória familiar, território e cuidado com a natureza caminham juntos no Vale do Guaporé.
Essas histórias foram registradas como aquilo que são: memórias transmitidas entre gerações. Elas têm valor próprio e complementam o que os métodos arqueológicos conseguem alcançar.
Patrimônio é de todos
Encontrou algum objeto antigo, como cerâmica, pedra lascada ou machadinha? Não remova do lugar. Comunique ao IPHAN em Rondônia, pelo telefone (69) 3015-2691, e ajude a preservar a história do Vale do Guaporé.
Fotografias: CMVG Pesquisas Arqueológicas, 2026.