As ferrovias desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento econômico, social e territorial do Brasil. Introduzidas em meados do século XIX, elas contribuíram para a integração do território nacional, impulsionaram o transporte de cargas e passageiros e facilitaram o escoamento da produção agrícola — especialmente do café, principal produto da economia brasileira naquele período.
Além de apoiar a industrialização, as ferrovias estimularam a formação de cidades, criaram dinâmicas comerciais e consolidaram uma malha de infraestrutura que conectava regiões produtivas aos portos exportadores.
A chegada dos trilhos ao brasil
A primeira ferrovia brasileira foi inaugurada em 30 de abril de 1854, por D. Pedro II, com a criação da Estrada de Ferro Petrópolis, que ligava Porto Mauá a Fragoso, no estado do Rio de Janeiro. O trecho inicial tinha 14 km, e a ligação com a cidade de Petrópolis, transpondo a Serra do Mar, só foi concluída em 1886.
No estado de São Paulo, a primeira ferrovia foi a São Paulo Railway Company, inaugurada em 1867, com o objetivo de ligar Santos à vila de Jundiaí, conectando os cinturões produtores de café do interior paulista ao porto. Em 1877, os trilhos paulistas se uniram à Estrada de Ferro Dom Pedro II, ampliando ainda mais a malha ferroviária.
O final do século XIX e o início do XX foram marcados por uma expansão rápida da malha ferroviária paulista, com a criação de companhias como:
- Companhia Paulista de Estradas de Ferro
- Companhia Mogiana de Estradas de Ferro
- Estrada de Ferro Sorocabana
- Noroeste do Brasil
Essas empresas interligaram diversos municípios, estruturaram corredores de exportação e impulsionaram o crescimento urbano e econômico.
O papel das ferrovias em São Vicente
Localizada na Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS), a cidade de São Vicente foi cortada por duas importantes ferrovias que faziam o transporte de mercadorias do interior paulista com destino ao Porto de Santos: ramal Santos–Juquiá, construído pela São Paulo Railway (SPR) e inaugurado em 1914. Essa linha possibilitou a conexão entre Santos, São Vicente, Itanhaém e o Vale do Ribeira, sendo o primeiro leito férreo a atravessar o município vicentino continental propiciou o surgimento de novos bairros. O primeiro deles foi Samaritá, que começou a se formar ainda na década de 1930. A segunda ferrovia, o ramal Mairinque–Santos contribuiu para o desenvolvimento urbano de São Vicente, até então restrito à área insular foi construída pela Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) e inaugurada em 1937.

Estações ferroviárias: Pontos de encontro e memória
As estações ferroviárias tornaram-se pontos importantes nas cidades. Mais do que estruturas logísticas, elas funcionavam como centros de convivência, locais de trocas comerciais, culturais e sociais.
A partir da década de 1930, no entanto, a hegemonia ferroviária começou a enfraquecer com o avanço da malha rodoviária nacional, resultando na desativação e sucateamento de muitas linhas nas décadas seguintes. Atualmente, mesmo desativadas, essas estruturas permanecem como símbolos materiais de uma era de transformações urbanas e econômicas.
Recuperação e valorização do patrimônio ferroviário
Atualmente, várias dessas estações encontram-se em ruínas. No entanto, iniciativas de recuperação e valorização têm ganhado espaço. Entre elas estão a implantação de novos modais como o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e o reconhecimento das antigas estruturas como patrimônio cultural.
VLT e licenciamento arqueológico em São Vicente
No contexto do projeto de implantação do VLT – Trecho 3 (Barreiros–Samaritá), no município de São Vicente, foi realizado um estudo arqueológico conduzido pela equipe da Ybyara Arqueologia, autorizada pela Portaria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) nº 28/2025.

As sondagens arqueológicas realizadas na área da obra não identificaram novos sítios arqueológicos, atualmente São Vicente conta com cinco sítios registrados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No entanto, a pesquisa demonstrou a presença de elementos representativos do passado ferroviário do município, especialmente nas imediações da antiga Estação Samaritá, onde foram identificados vestígios estruturais como dormentes, trilhos e ruínas de edificações.

Educação Patrimonial: conhecer para valorizar
Como parte do estudo é proposta um Programa de Educação Patrimonial que tem como objetivo fomentar a aprendizagem coletiva e a valorização do patrimônio cultural de São Vicente. Para este programa a ênfase foi no patrimônio ferroviário, especialmente aquele associado à antiga Estação Ferroviária Samaritá. Uma das propostas foi a realização de uma oficina que abordasse a importância do Patrimônio Ferroviário regional.
Neste espaço, a Ybyara Arqueologia apresenta disponibiliza a proposta da referida oficina.
Oficina “Nos Trilhos da História”
A oficina “Nos Trilhos da História: Um Passeio pelo Patrimônio de São Vicente” propõe uma abordagem participativa sobre os marcos históricos da cidade, com destaque para os impactos das ferrovias na vida social e econômica local.
Objetivo:
Promover o reconhecimento dos elementos do patrimônio cultural ferroviário de São Vicente por meio da construção coletiva de um mapa patrimonial.
Etapas da Oficina
1. Introdução Histórica: A Ferrovia em São Vicente
- Realização de uma oficina introdutória sobre a história das ferrovias no município, com ênfase na Estação Samaritá.
- A atividade busca, de forma coletiva, identificar os eventos históricos e paisagens patrimoniais que compõem a memória da comunidade.
- Pode ser realizada em escolas ou centros comunitários.
2. Construção do Mapa Patrimonial
- A partir das reflexões da primeira etapa, os participantes irão elaborar coletivamente um mapa do patrimônio ferroviário da cidade, destacando os locais e eventos importantes associados às ferrovias.
Essa iniciativa contribui para a mémoria da história das ferrovias em São Vicente. Basta olhar com atenção para os trilhos que permanecem na memória da cidade.
Referências:
FLORÊNCIO, S. R. R. Educação patrimonial: um processo de mediação. In: TOLENTINO, Átila Bezerra (Org.). Educação patrimonial: reflexões e práticas. João Pessoa: IPHAN-PB, 2012. (Caderno Temático, 2).
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN. As ferrovias na República. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/610. Acesso em: 25 maio. 2025.
IPHAN. Educação patrimonial: histórico, conceitos e processos. Textos de Sônia Rampim Florêncio, Pedro Clerot, Juliana Bezerra e Rodrigo Ramassote. Brasília, DF: IPHAN/DARF/COGEDIP/CEDUC, 2014.
MADRE DE DEUS, F. G. Memórias para a história da capitania de São Vicente. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975.
ROMÃO, K. M.; FIORIN, E. Railway heritage of the Samaritá station in São Vicente – SP. Revista Nacional de Gerenciamento de Cidades, v. 10, n. 78, 29 out. 2022.
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